domingo, 30 de novembro de 2008

Morrerei sem um abraço de Saramago


Na última quinta-feira, o Brasil recebeu e hospedou um dos melhores escritores da América Latina, José de Sousa Saramago.


De fato eu tentei ir assistí-lo e até quem sabe, ter uma lembrança assinada em seu último livro (que estou lendo atualmente), a Viagem do Elefante. Os ingressos seriam liberados na Rede SESC às 10h do dia 21 de Novembro. Então ficou tudo certo. Meu celular ficou responsável por despertar para eu correr até o Sesc e buscar meu ingresso, seria um par.

Todavia, uma sexta-feira de manhã não foi uma data bem escolhida para a distribuição dos ingressos, eu não passava muito bem, não vítima de alguma doença ou virose, e sim, de um dia anterior muito bem regado, se é que me entendem.

Detalhes à parte, cheguei na Rede às 13h, andei o mais rápido que me foi possível e cheguei ao guichê. Fui objetiva, "Preciso ver o Saramago", percebi que a pessoa não sabia exatamente sobre o que eu estava falando, e então, um pouco mais educada, repeti. Do outro lado do vidro ecoou um certo "Acabou, querida". Neste momento eu realmente não consegui não tentar enxergar quem estava do outro lado do vidro, como assim não tinha mais? Haveria nesta conjuntura alguém que o quisesse ver mais do que eu? Mas é claro que ela não sabia da tão notável importância que aquele dia teria em minha vida.

Tirei meu óculos de sol, e deixei que ela visse minha cara de compaixão, quando ela olhou, me valeu o dia ao implorar, "Por favor, que diferença fará uma pessoa a mais, uma a menos lá dentro" E ela me respondeu "Exatamente". Aí foi demais, aí me feriu. Por sorte neste exato momento entrava uma senhorinha com a aparência de uma experiente coordenadora na sala, e perguntei a ela, como se ignorasse a balconista responsável, porém ao receber a mesma resposta eu implorei muito mais, claro que com pouco menos de empolgação que imagina-se, quando de repente, ela levou os olhos para cima dos óculos e perguntou "Você realmente quer um ingresso?", respondi prontamente que Sim, claro. E então ela se dispôs ao sacrificante esforço de abrir uma pasta preta e me responder, "É, Acabou mesmo".

PORRA!!! Disso eu já sabia.

Meu dia foi arruinado pela, espero eu que, última frustração do ano.
Voltei pra casa filosofando sobre o ocorrido, talvez fosse o 'Quadrado', - este é o nome provisório de minha teoria, chegará o dia de explicar - quantas pessoas conseguiram o ingresso e nem sabiam se poderiam estar lá, muitas outras nem sabiam direito quem ele é, muitas outras pegaram porque moram próximo ao SESC e não haveria esforço algum, então seria indiferente. Creio que algumas outras são graduandos em Publicidade e Propaganda e o cara esforçado lá da frente comentou que seria surreal, e então, foi nesta que levaram a minha chance de ver o Saramago, talvez a última, não se sabe, pois se confere que até alguns dias atrás ele estava internado, doentinho. Não se poderia esperar menos, 86 anos é bastante tempo.

Confesso que esta minha paixão é recente, e talvez este logro seja julgado como um demasiado capricho, porém creio que não haveria no mundo alguém que me entendesse como Saramago. Comunista, Ateísta, tem tudo isto e um monte de outras coisas no meu espelho. Talvez um abraço forte e atencioso fosse suficiente para eu encontrar mais alguma coisa que possa estar chacoalhando de lá pra cá dentro de mim.

Hoje, ainda com um resto de frustração nas mãos, entendo que não o vi, não o abracei, apesar disso, ainda me sinto mais próxima que os graduandos ou os vizinhos do parque.

Um comentário:

  1. Você percebe que se pensarmos através do quadrado, não era mesmo pra você ter conseguido. Nem deus e nem o fato de gostar mais de Saramago fizeram com que você pudesse vê-lo.
    ... E é dessas coisas que ele acaba falando.

    Sincronicidade, Aline ...

    A imaginação, às vezes, é melhor do que os fatos.

    Te amo e seu blog tá lindo e você escreve muito bem !

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